“Meu filho tem alergia alimentar e vai começar a frequentar a escola. E se ele comer algo por engano?”
Essa é uma preocupação muito comum entre as famílias. A criança pode ter uma reação após consumir um alimento, tocar em resíduos ou receber uma preparação com ingrediente não identificado.
Nesses momentos, a escola precisa saber diferenciar uma manifestação leve de uma emergência. Quando há suspeita de anafilaxia, a adrenalina deve ser usada sem esperar a piora dos sintomas, conforme o plano de ação prescrito pelo alergologista.
Por que a escola precisa ter um plano de ação?
A anafilaxia pode evoluir rapidamente. Quando os adultos ao redor não sabem o que fazer, podem ocorrer atrasos perigosos:
- Esperar a reação desaparecer sozinha;
- Oferecer apenas um antialérgico;
- Procurar a família antes de chamar o SAMU;
- Pedir que a criança caminhe até a enfermaria;
- Aguardar o aparecimento de manchas na pele;
- Não saber onde está o autoinjetor de adrenalina.
O plano de ação é um documento escrito pelo médico que deve informar:
- Qual é o alimento ou desencadeante conhecido;
- Quais sinais indicam uma reação grave;
- Quando usar a adrenalina;
- Como utilizar o dispositivo prescrito;
- Quando chamar o SAMU;
- Quais familiares devem ser contatados;
- Quais cuidados devem ser tomados até a chegada do atendimento.
Esse documento deve estar acessível na escola, na mochila da criança e com os responsáveis autorizados.
Quais sintomas podem indicar uma reação grave?
Os sinais podem aparecer em minutos ou algumas horas após o contato com o alimento.
Sintomas na pele e nas mucosas
- Coceira intensa;
- Urticária generalizada;
- Vermelhidão;
- Inchaço nos lábios, olhos, língua ou garganta;
- Sensação de garganta fechando.
Sintomas respiratórios
- Tosse persistente;
- Chiado no peito;
- Rouquidão;
- Dificuldade para respirar;
- Respiração ruidosa;
- Alteração da voz;
- Sensação de aperto no peito.
Sintomas digestivos
- Vômitos repetidos;
- Dor abdominal intensa;
- Cólicas importantes;
- Diarreia associada a outros sintomas.
Sintomas circulatórios ou neurológicos
- Palidez intensa;
- Fraqueza;
- Tontura;
- Desmaio;
- Confusão;
- Sonolência incomum;
- Queda da pressão.
A anafilaxia pode acontecer mesmo sem urticária ou outras manchas na pele. Dificuldade respiratória ou sinais de comprometimento circulatório após a ingestão de um alimento suspeito já exigem ação imediata.
Quando usar a adrenalina?
A adrenalina deve ser utilizada quando houver suspeita de anafilaxia, especialmente nos seguintes cenários:
- Dificuldade para respirar após contato com o alimento;
- Inchaço de língua ou garganta;
- Rouquidão ou sensação de fechamento da garganta;
- Tontura, desmaio ou palidez intensa;
- Queda da pressão;
- Vômitos repetidos associados a urticária ou inchaço;
- Sintomas em mais de um sistema do corpo após exposição ao alimento;
- Piora rápida da reação.
Se a criança possui autoinjetor prescrito, ele deve ser aplicado imediatamente, na parte externa da coxa, conforme a orientação médica.
Não se deve esperar que a reação fique mais intensa para tomar uma decisão. O atraso na aplicação pode permitir a progressão para obstrução das vias aéreas ou choque.
E se houver apenas urticária?
Urticária isolada, sem dificuldade para respirar, alteração da voz, desmaio, vômitos repetidos ou outros sinais de gravidade, geralmente não significa anafilaxia.
Nessa situação, a escola deve:
- Interromper a exposição ao alimento suspeito;
- Avisar os responsáveis;
- Seguir o plano de ação da criança;
- Observar a evolução dos sintomas;
- Procurar orientação médica se houver piora ou surgimento de novos sinais.
O antialérgico pode fazer parte do plano prescrito para reações leves, mas não deve ser usado para atrasar a adrenalina quando há sinais de anafilaxia.
Na dúvida entre uma reação leve em evolução e uma reação grave, a equipe deve seguir o plano de ação individual da criança e buscar orientação de emergência.
O que fazer depois de aplicar a adrenalina?
A aplicação da adrenalina não substitui o atendimento médico.
A escola deve:
- Aplicar a adrenalina prescrita, se houver sinais de anafilaxia;
- Ligar imediatamente para o SAMU pelo 192;
- Informar que se trata de uma suspeita de anafilaxia;
- Manter a criança deitada, com as pernas elevadas, se tolerado;
- Se houver vômitos, colocá-la de lado;
- Se houver dificuldade respiratória, permitir a posição mais confortável para respirar;
- Não deixar a criança andar ou ficar em pé sem necessidade;
- Permanecer com ela até a chegada do atendimento;
- Informar o horário em que a adrenalina foi aplicada;
- Considerar uma segunda dose somente conforme o plano médico e se houver outro dispositivo disponível, especialmente se não houver melhora ou se os sintomas retornarem.
Mesmo que a criança pareça melhorar, a avaliação em serviço de emergência é necessária. Os sintomas podem retornar depois de uma melhora inicial.
Antialérgico substitui adrenalina?
Não.
Antialérgicos podem aliviar coceira e urticária, mas não tratam adequadamente:
- Falta de ar;
- Inchaço da garganta;
- Queda da pressão;
- Choque;
- Comprometimento da circulação;
- Progressão rápida da anafilaxia.
Corticoides também não substituem a adrenalina e não devem ser usados como primeira medida em uma reação grave.
Broncodilatadores podem ser necessários em algumas situações, principalmente quando a criança tem asma, mas também não substituem a adrenalina na anafilaxia.
Como a escola pode prevenir acidentes?
A prevenção começa antes da crise.
A família e a escola devem combinar medidas claras:
- Entregar o plano de ação por escrito;
- Manter o autoinjetor em local conhecido e acessível;
- Conferir regularmente validade e condições do dispositivo;
- Treinar professores, coordenadores e funcionários;
- Informar quem está autorizado a administrar a medicação;
- Orientar a criança, de acordo com a idade;
- Evitar compartilhamento de alimentos;
- Ensinar a equipe a conferir rótulos;
- Evitar contaminação cruzada durante o preparo;
- Ter contatos de emergência atualizados;
- Comunicar excursões, festas e atividades fora da escola;
- Revisar o plano após qualquer reação.
A equipe escolar não deve depender apenas da presença dos pais. Uma reação pode ocorrer durante o recreio, no transporte escolar, em uma festa ou em uma atividade externa.
A criança precisa carregar dois dispositivos?
Essa decisão deve ser individualizada pelo alergologista.
Em algumas situações, o médico pode recomendar que a família tenha mais de um dispositivo disponível, especialmente quando:
- A criança permanece muitas horas fora de casa;
- Frequenta escola e atividades extracurriculares;
- Já teve anafilaxia grave;
- Existe dificuldade de acesso rápido a um serviço de emergência;
- O plano prevê possibilidade de segunda aplicação.
O mais importante é que a família saiba onde o dispositivo está, que ele esteja dentro da validade e que os adultos responsáveis saibam utilizá-lo.
Quando procurar o alergologista?
A avaliação especializada é necessária quando a criança:
- Teve uma reação após comer determinado alimento;
- Apresentou inchaço, falta de ar ou desmaio;
- Teve vômitos repetidos associados a sintomas na pele;
- Possui diagnóstico de alergia alimentar;
- Precisa de um plano de ação para a escola;
- Tem dúvidas sobre o uso do autoinjetor;
- Apresentou reação mesmo após evitar o alimento;
- Precisa avaliar outras alergias associadas.
O alergologista pode confirmar o diagnóstico, identificar os alimentos envolvidos, orientar a prevenção e treinar a família e os cuidadores para agir em uma emergência.
Conclusão
Em uma criança com alergia alimentar, a escola precisa saber reconhecer os sinais de anafilaxia e agir rapidamente.
A regra principal é:
dificuldade para respirar, inchaço da garganta, desmaio, queda da pressão ou progressão rápida após contato com o alimento exigem adrenalina conforme o plano médico e acionamento imediato do SAMU.
O antialérgico não substitui a adrenalina em uma reação grave.
Um plano de ação escrito, treinamento dos cuidadores e acesso rápido à medicação podem reduzir atrasos e salvar vidas.
Agendamento:
(82) 99348-8989 | (82) 3023-0152
Dr. Marcos Gonçalves — Alergologista e Imunologista em Maceió/AL
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